Bicentenário das relações Brasil–Santa Sé é celebrado em Roma

Missa de ação de graças em Basílica de Santa Maria Maior reúne autoridades civis e religiosas
Cardeal Parolin destaca que o marco é um “limiar” para novos compromissos sociais e espirituais (Foto: Vatican News)

Nesta sexta-feira (23), Brasil e Santa Sé celebraram os 200 anos de relações diplomáticas com uma missa de ação de graças na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma. A celebração foi presidida pelo secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Pietro Parolin, que ressaltou a importância do bicentenário como um “limiar”, ou seja, o começo renovado de um compromisso comum em favor do ser humano e de sua vocação transcendente.

Em seu discurso, o cardeal destacou que os dois séculos de relações entre o Brasil e a Santa Sé não se resumem a uma história diplomática, mas representam um caminho espiritual e humano “registrado na carne viva de um povo que crê”.

Um elo que começou com o reconhecimento do Império do Brasil

O vínculo diplomático entre os dois países teve início em 1826, quando a Santa Sé reconheceu o Império do Brasil. O primeiro representante do Imperador Pedro I em Roma foi Monsenhor Francisco Corrêa Vidigal. No mesmo ano, o Papa Leão XII propôs a São Gaspar del Bufalo o cargo de representante pontifício no Brasil, mas ele pediu licença para não assumir o posto.

Somente em 1829, foi enviado ao Brasil Mons. Pietro Ostini, o primeiro Internúncio Apostólico e Delegado Apostólico para toda a América Latina. Desde então, 34 Internúncios e Núncios Apostólicos se sucederam no país, consolidando a relação entre o Vaticano e o Brasil.

Em sua homilia, o cardeal Parolin lembrou que o relacionamento entre os dois países é construído por encontros, palavras, gestos e decisões corajosas que ajudaram a “construir pontes onde o mundo frequentemente ergue muros”.

Diplomacia da Igreja: missão pastoral e não busca de privilégios

O secretário de Estado também destacou que a diplomacia da Igreja não tem origem na busca de vantagens políticas, mas em uma visão moral e espiritual da história. Inspirado no discurso recente do Papa Leão XIV ao Corpo Diplomático, Parolin ressaltou que a atuação pontifícia é uma expressão da catolicidade da Igreja e que é movida por uma urgência pastoral voltada ao serviço da humanidade.

“Na diplomacia da Igreja, o diálogo prevalece sobre o conflito, a paciência sobre a opressão e a consciência sobre o interesse imediato”, afirmou o cardeal. Ele acrescentou que, ao longo de dois séculos, o Brasil não viu na Igreja uma potência estrangeira, mas uma companheira de viagem, atenta às feridas sociais, aos desafios educativos e à promoção da justiça e da paz.

Mensagem de esperança e compromisso com a dignidade humana

Ao se dirigir ao povo brasileiro, Parolin destacou que a fé cristã e a devoção mariana marcam profundamente a cultura do país. Ele lembrou que, apesar das transformações políticas e sociais, a relação com a Santa Sé permaneceu ancorada na centralidade da pessoa humana, criada à imagem de Deus.

O cardeal também ressaltou o simbolismo de celebrar o bicentenário em uma basílica dedicada à Mãe de Deus. “Sob o olhar maternal de Maria, a diplomacia torna-se um exercício de escuta, custódia e tecelagem de laços”, disse. Ele mencionou ainda a importância da devoção brasileira a Nossa Senhora Aparecida como ponte espiritual com a Sé de Pedro.

Por fim, Parolin lembrou os três Papas que visitaram o Brasil — São João Paulo II, Bento XVI e Francisco — e concluiu com um convite:

“Que estes duzentos anos não sejam um ponto de chegada, mas um limiar, o início renovado de um compromisso comum em favor do homem e de sua vocação transcendente.”

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Vatican News